A minúscula Guaribas, no interior do Piauí, foi a cidade piloto do Bolsa Família em 2003. Desde então, o passado de fome ficou para trás e 98% dos habitantes são hoje alfabetizados, contra 59% antes disso. As mulheres são beneficiárias diretas do programa.
Essas informações chegam no final de A Fabulosa Máquina do Tempo, mas estão em filigrana por trás de quase tudo o que vemos no filme de Eliza Capai. Com um punhado de meninas de Guaribas, Eliza criou um dispositivo lúdico para sondar o espírito dessa infância feminina que experimenta um Brasil diferente daquele vivido por suas mães.
Do Gênesis à morte, elas passam pelos temas mais cruciais da vida enquanto brincam de fazer cinema. Entrevistam suas mães sobre as decisões que elas tomaram em suas vidas, encenam o cotidiano doméstico e seus futuros casamentos, dramatizam os papéis de gênero, fabulam o medo da morte.
De tudo emana o desejo de não repetir as escolhas das mães e projetar para si mesmas um futuro de maior autonomia e felicidade. No limiar da adolescência, essas meninas começam a se inquietar com o que lhes espera como mulheres. De alguma maneira, A Fabulosa Máquina do Tempo se assemelha ao que Marília Rocha fez com adolescentes mineiras à beira da mocidade em A Falta que me Faz.
A ideia de uma máquina que possa transportar as pessoas para o passado ou para o futuro propicia opções e percepções que Eliza colhe e reorganiza com muita graça no tecido fluido do filme. O trabalho de montagem e pós-produção sonora foram decisivos para manter realidade e imaginário integrados num misto de conversa, brincadeira e performance musical (composições espertas de Décio 7).
As igrejas evangélicas estão intimamente ligadas ao cotidiano com a ambivalência de sua atuação – preservando o conservadorismo, mas minimizando certos descaminhos sociais como o vício da bebida. A sequência em que as garotas imitam um culto e depois “saem” para a “demoníaca” balada funk é exemplar de como a eventual influência religiosa se mistura aos chamamentos mundanos.
A Fabulosa Máquina do Tempo é uma criação coletiva de Eliza Capai com suas cativantes personagens. Algo parecido com o que ela fez com estudantes em Espero Tua (Re)Volta. Eis uma forma de injetar frescor e legitimidade de voz aos documentários sobre infância e juventude.




